Todos os anos a cena repete-se: na véspera de 24 de Junho, alguns milhares de pessoas saem à Avenida Central, em Braga, para festejar o S. João, munidos com o martelinho ou o alho-porro. Antes de se entrar pela noite dentro, transeuntes e visitantes começam a romaria, com a sardinha a pingar no pão, regado com vinho da região. Ao contrário do que aconteceu na outra cidade onde a romaria joanina tem tradição, no Porto, na cidade dos arcebispos S. Pedro aliou-se a S. João e impediu que a chuva amainasse a rebelião que estava para vir, durante a madrugada. É noite de S. João, o ponto mais alto das festas em honra do santo.
“É a noite mais longa da cidade”, costuma-se dizer. E é bem verdade. Quando o sol ainda vai dobrando o horizonte, o cheiro das sardinhas assadas e o aroma do vinho que sai da pipa chamam a atenção de bracarenses, que se transformam nos anfitriões da festa por uma noite, e convidam vizinhos, que não se fazem rogados e entram rapidamente na festa.
Cai o pano escuro sobre a cidade e é então ver o mexerico pela Avenida. As sardinhas já foram comidas. A invasão começa. Milhares de pessoas, velhos e novos, bracarenses e não só, transformam a Avenida Central num campo de batalha. Munidos dos tradicionais martelinhos e dos olhos porros, os foliões fazem a festa enchendo o ar com o som das marteladas e dos sorrisos.
Rua acima, rua abaixo, experimenta-se a elasticidade do martelinho ou então esfrega-se o alho-porro sobre a cara dos que se vai vendo passar - nesta noite, funciona mais para abrir caminho por entre a imensa multidão. Se para os mais velhos estes dois tradicionais objectos faz lembrar o tempo da juventude, para os mais novos trata-se de mais uma estratégia namoradeira. Quem não precisa, porque já tem o par, divide com o seu companheiro(a) algodão doce e a chamada maçã do amor. As casas de farturas são outro dos pontos onde as pessoas se reúnem.
Após a tradicional sardinhada, milhares de pessoas começam a confluir para a Avenida Central. Lá esperam pelo Fogo de Artificio, mas enquanto esse momento não chega distribuem marteladas ao longo de toda a avenida. Há, inclusive, pequenos grupos que param e se enfrentam, tentando dar o maior número de marteladas no menor espaço de tempo. Outros preferem dar umas voltas nos carrosséis e tentar a sua sorte nos jogos de tiro ao alvo.
Na véspera de S. João vários são os pontos de interesse: “parque de diversões” junto ao Pavilhão de Exposições de Braga, barraquinhas alugadas pela câmara, que se estendem pela Avenida, ou então, nas tendas-restaurantes, localizadas no parque da onde se realiza a feira da cidade, onde o som de fundo é tratado pelas tubas, clarinetes e tambores de várias bandas filarmónicas que passaram no coreto.
A esta música juntaram-se outras, este ano: a de que provinhas das caravanas de venda de discos, cujo disc-jockey colocava os últimos sucessos da música pimba portuguesa a altos decibéis, para marcar diferença à concorrência e a outra, que causou um enorme desconforto sonoro durante toda a noite, a dos apitos que se costuma ouvir nos estádios de futebol.
À medida que se aproxima a hora do Fogo, as pessoas concentram-se no fundo da Avenida dando as últimas marteladas. Os primeiros foguetes rebentam, os olhos fixam-se no céu que se enche das mais variadas cores.
"Aguentam-se estes barulhos todos, mas subsiste uma dúvida: o presidente da Associação de Festas de S. João de Braga julga que era esta a sonorização que a RTP deveria apresentar ao país?
"O recinto do Parque de Exposições de Braga transforma-se todos os anos, durante o S. João, num parque de diversões, pronto para agradar a (quase) todos os gostos. As cores, a música, os pregões e o estacionamento caótico nas imediações fazem parte da festa."
"A ideia é importada de uma outra ideia, pelo que soube até repetida, a que assisti na madrugada de S.João, aqui mesmo na cidade dos Arcebispos. Afinal, somos todos donos das vias públicas, como aquela que muitos de nós atravessamos diariamente em frente ao acesso ao Café-Concerto do Teatro Circo, em Braga."